cab_hipmedica.gif (813 bytes)

UM PROCESSO TERAPÊUTICO CIENTÍFICO

A história do hipnotismo perde-se num passado nevoento. Há indícios de que, nas antigas civilizações, como as da Pérsia, Babilônia, Assíria, Índia, Egito e Grécia, o hipnotismo era praticado principalmente pelos religiosos de várias seitas. No Egito antigo, foram famosos os "Templos do Sono", nos quais, através de passes mágicos, as pessoas eram adormecidas e recebiam as sugestões necessárias. Tudo indica que, na América do Sul, os Maias, Astecas e Incas deixaram marcas indeléveis, numa demonstração inequívoca da existência e prática do hipnotismo.

Ainda em tempos remotos e por longo período de séculos, o hipnotismo era considerado "ocultismo": o transe era devido à possessão de espíritos ou demônios. Em épocas passadas, alguns padres, como Gassner, Maximiliano Hell e o abade Faria (um dos personagens da famosa obra O Conde de Monte Cristo, de A. Dumas) influíram e propagaram o hipnotismo.

Não podemos nos esquecer dos sábios Avicena, Paracelso e outros filósofos que se dedicavam ao assunto e difundiram o hipnotismo. É importante lembrar que, em priscas eras, os gregos, em verdadeiras peregrinações, buscavam no templo do Deus da Medicina – Esculápio – a cura dos seus males: nada mais nada menos que a hipnose.

O povo, em geral, julga ainda um tabu a prática do hipnotismo, devido ao fato de que os hipnotizadores de palco, a falta de esclarecimentos e as falsas informações levaram o hipnotismo a um conceito o mais desfavorável possível.

Entretanto, a hipnose médica (hipnoterapia) e a hipnose odontológica (hipnodontia) são processos terapêuticos tão científicos e fisiológicos quanto a clínica e a cirurgia.

A fisiopatologia córtico-visceral, tão bem estudada por Charcot em fins do século passado, está afastando o fantasma da superstição.

Em pleno século XVIII, precisamente 1776, surgiu um médico austríaco, Anton Meismer, considerado o precursor do hipnotismo. Foi ele o criador do "magnetismo animal". Inspirado nos ensinamentos de Paracelso, acreditou que o imã curava doentes. Algum tempo depois, observou que a impulsão das mãos e passes em todo o corpo dos pacientes obtinham o mesmo resultado.

Meismer, com seus fluidos magnéticos, teve tal influência na cultura da época que o "magnetismo animal" tornou-se conhecido como força mesmérica ou mesmerismo. Ainda no século XVIII, surge a figura do abade Faria (já citado), que dá expressiva contribuição ao hipnotismo. No século XIX, época em que não existiam o éter e o clorofórmio, aparecem os médicos Elliotson e John Isdaile, que lutam pelo reconhecimento do fenômeno hipnótico como coadjuvante no tratamento cirúrgico – o que redundou em valiosa contribuição para este procedimento.

No mesmo século (1841), dr. James Braid, famoso cirurgião inglês, estudioso do fenômeno hipnótico, ignorou o termo "magnetismo animal" e, baseado no princípio onírico, introduziu a palavra hipnotismo, derivada da palavra grega hipnos, significando sono. Embasado em seus conceitos neurofisiológicos, separou o sono hipnótico do sono fisiológico ou normal. Considerado o pai do hipnotismo, até os dias de hoje Braid mantém a notabilização por suas idéias e conceitos.

Mais tarde, em Nancy (França), surgiram duas importantes figuras: dr. Liebeault e dr. Berneheim, que formaram a Escola de Nancy, rival da Salpetiére (Paris), liderada por Charcot – o qual propagava que somente os neuróticos seriam hipnotizáveis. Hoje, sabe-se que isto não é verdade.

A Escola de Nancy propiciou, mundialmente, a mais extraordinária expansão da hipnose. De certa forma, o hipnotismo contribuiu significativamente tanto para a Psicanálise como para seu fundador, Freud (servindo como apoio para as suas descobertas psicológicas, embora ele não a utilizasse).

No Brasil, com exceção dos hipnotizadores de palco, entrevistas à imprensa e emissoras de televisão, tudo indica que, na década de 30, tenha surgido o primeiro livro sobre hipnotismo, escrito pelo médico e polígrafo Medeiros e Albuquerque. Com o passar do tempo, outras obras apareceram, principalmente as dos professores Karl Weissmann, Jefferson G. Gonzaga, Osmand Andrade, José Monteiro, Joel Priori, Torres Nory e Luiz Lomba. Em 1955, a convite da Associação Brasileira de Odontologia do Rio de Janeiro, o professor Karl Weissmann ministrou o primeiro curso sobre hipnotismo.

A Bristish Medical Association publicou relatório sobre o emprego do hipnotismo na medicina, no qual mostra extensa bibliografia especializada.

Um toque de apoio de hipnoterapia em todas as especialidades médicas é válido não somente como coadjuvante no tratamento, mas também na cura, principalmente nas doenças psicossomáticas.

A hipnose tem por escopo penetrar no subconsciente ou inconsciente (supraconsciente para alguns) do indivíduo, liberando emoções, complexos, conflitos neuróticos e ansiogênicos.

Evidentemente, não é panacéia, há limita-ções e perigos. Recentemente, a legislação brasileira permitiu o uso da técnica hipnótica aos médicos e dentistas, mediante curso regular de especialização – o governo, em face da importância do assunto, deve regulamentar esse procedimento, inclusive inserindo-o no currículo universitário.

A hipnose, já nos estágios superficiais, produz um relaxamento físico e mental. A sensibilidade à mesma não está ligada a sexo, idade, grau de inteligência ou raça, exceto no caso de portadores de psicose, que não são hipnotizáveis.

Não é demais lembrar o poder da sugestão dos oradores de praça pública, os quais, como verdadeiros hipnotizadores, conseguem muitas vezes os seus intentos.

Atualmente, graças a sua estrutura científica neurofisiológica e psicológica, a hipnose médica, tanto no Brasil como no mundo, afastando os seus aspectos mágicos e charlatanescos, está tendo, finalmente, seu reconhecimento. Hoje, a hipnose vive, portanto, a era do seu fastígio.

Paulo Acioli de Faro Borges é ex-conselheiro do Conselho Regional de Medicina do estado de Sergipe

 

1. Morais, Passos. O valor da hipnose no tratamento da asma brônquica. Trabalho inserido no livro "Aspectos atuais da hipnologia". Ed. Linográfica: São Paulo, 1971, Cap. 25, pp. 2-9.

2. Gonzaga, Jefferson. Hipnose na medicina e na odontologia: tratamento da asma. Ed. Linográfica: São Paulo, 1970, Cap. 18, pp.221-224.


3. Pelt, Van. Segredos do hipnotismo. Ed. Forense: Rio, 1960, pp. 32-33.


4. Pinheiro, Raimundo. Medicina psicossomática. Ed. Byk: Rio de Janeiro, 1992.


5. Monteiro, José. Prática da hipnose na anestesia. Ed. Círculo do Livro: São Paulo, 1969.


6. Weissmann, Karl. O hipnotismo e a psicologia: técnica e aplicação. Ed. Martins: São Paulo, 1969, pp. 10-40.

7. Andrade, Osmard. Manual de hipnose médica e odontológica. Ed. Atheneu: Rio de Janeiro, 1966, pp. 3-31.

8. Herron, William. Aplicações clínicas da sugestão e do hipnotismo. Ed. Monte Scoplus: Rio de Janeiro, 1985.


9. Still, Alfred. Fronteiras da ciência e da parapsicologia. Ed. Ibrasa: São Paulo, 1965, pp. 209-231.


10. Cário, Frank. Ajuda-te pela auto-hipnose. Ed. Best Seller: São Paulo, 1981.


11. Oriethy, Bey. Apostilas do curso de hipnose, ministrado na Biblioteca Pública de Sergipe, 1961.


12. Lomba, Luiz. Apostilas do curso de hipnose médica, ministrado na "Clínica Psicossomática", Praça Serzedelo Correia, Rio de Janeiro, 1970.

vol.gif (761 bytes)