Síndrome da Falsa Memória

 

por Hans Wolfgang TenDam

Tradução de Edison Flávio Martins

 

A chamada Síndrome da Falsa Memória é um obstáculo que dificulta a aceitação de nossa profissão. Descobriu-se que clientes que se recordaram de abuso sexual pelo pai quando eram muito jovens, se lembraram de algo que não aconteceu. Com certa freqüência isto tem resultado em publicidade negativa. Às vezes acaba resultando também em trabalho extra para nós.

Eu tive vários clientes totalmente traumatizados por causa das falsas acusações de uma filha. Os terapeutas ou psiquiatras pioraram ainda mais as coisas proibindo que as filhas tivessem contato com os pais. Se recordações de infância podem ser falsas, recordações de vidas pregressas devem ser até mesmo muito mais incertas. Embora eu não possa provar isto, estou bem seguro de que todo este arrazoado de conclusões não passa de lixo. Deixe-me explicar por que acho que isto provavelmente é assim.  

Falsas recordações existem, mas elas não têm o caráter de uma síndrome. Isto tudo não é suficiente para se constituir em um diagnostico profissional, como se as pessoas que falam disto soubessem sobre o que estão falando. Eles não sabem. Creio que atualmente cerca de 20% de todos o hipnoterapeutas e terapeutas de regressão usam terapia de vida passada, isto é, aceitam experiências de supostas vidas pregressas, pelo menos como terapeuticamente válidas. Qual seria a porcentagem de casos de falsa memória que aparecem na experiência dos terapeutas de vidas passadas? Eu não me surpreenderia se aquela porcentagem estivesse mais próxima de 2% que de 20%.

Em 1950 Ron Hubbard publicou "Dianetics". Naquele livro ele escreveu sobre suas próprias experiências com sua técnica de regressão. Uma de suas descobertas era a quantidade incrível de tentativas fracassadas de aborto nos Estados Unidos. Ele encontrou evidências em um grande número de casos de experiências terríveis no útero devidas a tentativas de aborto fracassadas: ferimentos por agulhas, sensações de queimadura causadas por venenos, pancadas com varas na mãe e até mesmo pontapés na barriga, queda de degraus, etc. Interessante é que em todos seus trabalhos mais recentes, Hubbard nunca retorna a este assunto. Por que? Porque ele descobriu as vidas passadas. Hubbard usa uma técnica primitiva e demorada de regressão: ele pede para as pessoas repetirem o episódio traumático até não haver mais qualquer reação à lembrança. Ele levava os pacientes até a experiência do nascimento na vida presente. A idéia era que se todos os engramas fossem apagados, a pessoa estaria “clear” (limpa). E definiu que uma pessoa “clear”, certamente tornava-se livre do medo, fúria, vergonha e outras emoções limitantes. O que ele acabou percebendo é que, a maioria das pessoas não estava aparentemente “clear” se os engramas não tivessem sido limpos para períodos anteriores ao nascimento; Imagine o que aconteceu quando ele encontrou antes de nascimento fortes lembranças de explosões, relatos de experiências com ferimentos cortantes, de quedas ou sufocação. Ele colocou essas experiências no único período de tempo que lhe pareceu possível: no útero. Claro que depois ele descobriu vidas pregressas. Ele encontrou experiências de mortes traumáticas no período pré-natal.

Fatos semelhantes aos encontrados por Hubard tem acontecido comigo e outros terapeutas nos últimos anos. Terapeutas que trabalham com medos ou problemas sexuais descobrem fortes lembranças de explosões e outros problemas e quando tentam regressão, eles podem encontrar abuso sexual violento. Agora se o terapeuta tem um pouco de experiência e sabe o que está fazendo e ao mesmo tempo acha que vidas passadas não existem, ele tem que projetar os sintomas presentes de, por exemplo, abuso sexual em uma área reprimida da infância. Desse modo nascem as falsas recordações. Evidentemente pode haver clientes que são psicopatas ou confusos, para os quais geralmente não se indica regressão. Eles podem exagerar as coisas e fazer até mesmo o terapeuta acreditar neles. Penso que só um terapeuta fraco e sem experiência se deixará enganar dessa maneira. Claro que alguns terapeutas sem um bom discernimento poderão orientar mal seus clientes. Mas alguns tiveram um treinamento profissional adequado. As experiências que eu conheço dos Países Baixos envolvem psiquiatras perfeitamente qualificados em metade dos casos. Profissionais bem fundamentados, mas muitas vezes ingênuos podem levar ao aparecimento de falsas recordações, mas eu acho que a razão principal seja preconceito e a falta de uma mente aberta. Pessoas assim involuntariamente falsificam recordações.

Uma coisa que eu gostaria de acrescentar: qual a verdade objetiva da revivência terapêutica? A idéia geral é que isto não é importante para a eficiência terapêutica de uma sessão. Eu penso que é verdade e ao mesmo tempo penso que é falso. Se durante ou após a sessão nós tentarmos conferir a realidade do que está acontecendo, nossa sessão não irá à parte alguma. Se o paciente se preocupar com isto, ele bloqueará a lembrança e se for o terapeuta que se preocupa, ele ficará aborrecido e a sessão se degenera em um grau que raramente conduzirá a um bom resultado terapêutico. Nós começaremos a interpretar os fatos de maneira literal. Mas em última instância, a preocupação com a realidade é importante. Quando uma pessoa se liberta de um certo problema sexual, mas falsamente acredita que foi estuprada pelo pai ou tio quando tinha quatro anos, nós fizemos uma má terapia. Assumindo-se que algo em uma aparente vida pregressa é verdade, as conseqüências são menos sérias.

Ainda penso que as pessoas têm cérebros, elas têm mentes, pensam, querem saber. Encontrar a verdade é uma catarse mental e faz parte de terapia. Na maioria das sessões de regressão a vidas passadas nós nunca podemos ter uma confirmação objetiva e eficaz do conteúdo da sessão. Mas podemos esclarecer os detalhes da experiência de modo o mais consistente possível através da revivência e verificação das conseqüências na vida presente da pessoa como ela é agora. Nós não estamos lidando com assuntos que precisem rigorosamente serem considerados como verdadeiros ou falsos. Mas há uma tremenda diferença entre o muito provável e o muito improvável, entre o incidente isolado e um padrão forte de lugares e épocas, inclusive a vida presente.

Geralmente as pessoas sãs (como nós, por exemplo) trabalham recordações verdadeiras de modo muito diferente das falsas recordações. Muitos de nós tivemos a experiência de que algumas sessões ou parte de sessões continuaram crescendo dentro de nós depois da sessão. Detalhes se tornaram mais claros, novas lembranças emergiram, um entendimento depois de outro se uniram. A experiência inteira repentinamente se torna mais clara e satisfatória, tornando-se para sempre disponível em algum lugar em nossa mente - e em nossa alma. Quem tem um pouco de experiência de como fazer a integração, de uma sessão sabe a diferença. Outras experiências podem parecer impressionantes no decorrer da sessão, mas depois, de alguma maneira elas se diluem, empalidecem. Às vezes uma experiência verdadeira pode ser perdida deste modo, porque temos outros assuntos não resolvidos em nós, mas uma verdadeira integração é impossível sem uma verdade básica. Eu me lembro de experiências de regressão que eu coloquei em um passado mítico, só pensando nos primórdios de Atlântida. Muito tempo depois eu descobri que a vivência estava na China, provavelmente alguns séculos antes de Cristo. Minhas noções românticas e provavelmente meus desejos românticos os tinham colocado em um país de conto de fadas. Mas os eventos básicos e os sentimentos envolvidos neles e a relação comigo como um indivíduo, permaneceu. Há pouco tempo eles ficaram mais sólidos.

Existem verdades parciais, e como terapeutas sabemos que quanto mais o corpo estiver envolvido na memória, menor a chance de fantasiarmos. Paradoxalmente, esta é uma das razões principais para a síndrome da falsa memória. O terapeuta vê o que os clientes sentem em seus corpos através de suas reações, postura e tensões.  Partes ficam frias ou se ruborizam, arquejando e lutando, enquanto vivenciam a lembrança de um estupro. Até mesmo um bom ator, uma boa atriz não pode trabalhar isso satisfatoriamente sem experiência prévia semelhante. Este estupro aconteceu, em algum lugar, com alguém, e é revivido aqui em nosso sofá. Confie no que está acontecendo, mas tenha cuidado com etiquetar. Eu gostaria de conhecer a freqüência em que colegas que fazem terapia de vidas passadas se envolvem com casos semelhantes.

 


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