IMPACTO EMOCIONAL

 

Funções cerebrais, antes subestimadas, estão revelando seu papel na formação de percepção e de memória

 

Morris Netherton

 

Tradução de Herminia Prado Godoy

 

Definição de Memória Emocional para Netherton:

 

A memória emocional é definida (por mim) como : uma reação, ou resposta, ligada a um incidente passado, a qual é experimentada como sentimentos expressos por uma ou mais das maneiras a seguir : amor (felicidade), medo (terror, pânico), raiva (ódio, violência), tristeza (desespero, desamparo, desesperança).

 

Medo, raiva e tristeza sempre terão raízes em experiências de vidas passadas, e precisam ser localizados na vida passada para que os traumas sejam completamente resolvidos.

 

Anatomia de emoções

Muito das pesquisas recentes sobre as emoções está centrado na amígdala, uma pequena estrutura cerebral em forma de amêndoa. A amígdala atua tanto como portal das emoções quanto como um filtro de memória, ao conferir um significado à grande quantidade de informações que são enviadas ao cérebro pelos sentidos.

 

1.       A informação sensorial é conduzida tanto à amígdala como à camada externa do cérebro, conhecida como córtex.

2.       A amígdala analisa a informação com relação ao seu peso emocional. Se, por exemplo, a informação for a visão e os ruídos de um urso rugindo, a amígdala envia sinais a outras estruturas cerebrais os quais podem gerar reações emocionais tais como medo ou ansiedade.

3.       O córtex cerebral gera uma imagem mais completa daquilo que foi percebido, podendo rapidamente suplantar os sinais de alarme enviados pela amígdala. Acredita-se também que a amígdala tenha uma forte influência sobre a memória. Se a informação tiver significado emocional, terá maior probabilidade de ser registrada com clareza na memória do indivíduo.

 

As partes do córtex que podem se opor a uma reação emocional não estão plenamente operantes numa criança até uma faixa etária entre 18 e 36 meses - ou seja, diversos meses após a amígdala ter-se tornado ativa. A maturação retardada do córtex pode ser conseqüências profundas. Os pesquisadores acreditam que muita informação emocional seja permanentemente registrada pela amígdala, antes que ela possa ser suplantada pelo córtex. Este registro emocional subconsciente pode exercer uma forte influência subconsciente, e criar a memória emocional.

 

Autoria : Margie Patlak

(autora free-lancer de Elkins Park, PA, EUA)

"Não seja tão emotivo" é uma expressão muito ouvida em nossa sociedade. Acredita-se que nossas emoções interfiram com aquelas funções cerebrais muito mais valorizadas tal como pensamento e percepção. Porém, pesquisas recentes revelam que as emoções desempenham um grande papel nestas funções cognitivas "superiores" do cérebro.

 

Os pesquisadores que mapeiam as ligações anatômicas entre os centros cognitivo e emocional do cérebro estão sugerindo que as emoções não apenas modelam aquilo que percebemos, porém selecionam também aquilo de que nos recordamos.

 

A pesquisa com animais está gerando também algumas explicações intrigantes sobre o porquê de algumas fobias não poderem ser apagadas, por que alguns indivíduos tendem a ser mais emotivos do que outros, e por que eventos emocionalmente intensos que ocorram antes da idade de 3 anos podem influenciar fortemente a vida de uma pessoa.

 

"É um período muito excitante para a pesquisa de emoções", afirmou o neurocientista Mortimer Mishkin, do NIMH (Instituto Nacional de Saúde Mental - National Institute of Mental Health), "Estamos descobrindo que em algum nível, as emoções fazem parte da maioria das coisas que nos acontecem durante o dia".

 

Muito dos estudos recentes se focaliza na amígdala, uma estrutura pequena e com forma de amêndoa, que se localiza na parte inferior do cérebro. Os estudos de neuroanatomia revelam que a amígdala atua como um pórtico para as emoções e como filtro para a memória, conferindo um significado à informação que os sentidos enviam ao cérebro.

 

Quando uma pessoa ouve o rugido de um urso e vislumbra a face de um urso espiando por entre os galhos de uma árvore, tais fragmentos de informação auditiva e visual são conduzidos à amígdala e à camada externa do cérebro. Esta região, conhecida como córtex, gera um quadro mais completo do que está sendo percebido - ela determina que o rugido ouvido provém de um urso. O córtex também confere um contexto aos fatos - determina que o urso está na floresta, e não num zoológico.

 

Em contraste, a amígdala examina a informação em relação ao seu conteúdo emocional. (Ela nota que o rugido pode significar perigo). Se uma resposta emocional for justificada, a amígdala envia sinais ao longo dos numerosos canais condutores neuronais que a ligam a outras estruturas cerebrais, o que pode gerar uma variedade de reações, incluindo medo, ansiedade, afeição e alegria.

           

O grande impacto que as emoções têm sobre o comportamento, e que anteriormente havia sido subestimado, se tornou dramaticamente aparente quando os pesquisadores estudaram animais cujas amígdalas estavam danificadas ou ausentes. Símios cujas amígdalas tenham sido removidas cirurgicamente têm comportamentos sexual e alimentar anormais, são socialmente retraídos, e são notavelmente indiferentes ao seu meio-ambiente. Quando eles são beliscados pelos investigadores, os animais se contraem porém não tentam fugir ou contra-atacar. Estudos de pessoas cujas amígdalas tenham sido danificadas sugerem que também elas ajam de maneira não-apropriada.       "As emoções realmente influenciam sua maneira de ver o mundo", diz Mishkin. Ainda que a maioria das pessoas não se dê conta disso, as emoções guiam o nosso comportamento ao nos atraírem em direção de algo favorável e nos afastando de algo prejudicial, afirma Joseph LeDoux, neurocientista da Universidade de Nova York. Ele diz que "geralmente não nos limitamos a agir ao acaso, porém propositadamente para obter algo bom ou evitar algo ruim. É a amígdala que nos permite fazer estas distinções."

 

Os estudos de LeDoux sugerem que as reações excessivamente emocionais podem se originar de uma resposta exagerada da amígdala à informação sensorial crua, antes de receber o "quadro geral" do córtex. Algumas pessoas podem reagir tão fortemente a um rugido que, quando elas se dão conta de que o mesmo veio de um urso no zoológico, os sinais de alarme disparados por suas amígdalas já não podem ser controlados.

 

Os estudos que LeDoux fez com ratos, publicados no "Journal of Comparative Anatomy" em 1985, sugerem a existência de um trajeto anatômico que permite que a informação coletada pelos sentidos se dirija diretamente à amígdala, antes que a mesma informação alcance o córtex. Estes dados crus podem estimular a amígdala a desencadear uma resposta emocional antes que ela receba em quadro mais acurado do córtex.

 

Estas reações rápidas da amígdala podem ter valor de sobrevivência. "No momento em que sua amígdala recebe a informação do córtex que lhe diz que aquele barulho é o rugido de um urso na mata, o urso pode já ter pego você", diz LeDoux. "A resposta da amígdala pode permitir que você escape".

O trajeto anatômico existente em ratos encontra-se também em primatas, e provavelmente também em humanos, diz LeDoux. "Ainda que o cérebro humano possa ter características anatômica ampliadas, não é provável que algo que existe no cérebro do rato se perca no cérebro humano."

 

Na maioria dos indivíduos, homens e animais, se uma resposta emocional inicial se provar desnecessária (se por exemplo o urso estiver amarrado a uma árvore), ela é rapidamente suplantada por sinais que o córtex envia à amígdala. Algumas pessoas podem ser excessivamente emocionais porque a resposta de suas amígdalas é mais forte de que a habilidade de seu córtex de controlá-la com informações mais racionais e corretas, ainda segundo LeDoux. Já que as características básicas que desencadearam a resposta emocional intensa permanecem ocultos na amígdala, "estas pessoas não conseguem explicar porque elas são tão emocionais", afirma LeDoux.

 

Em bebês, as partes do córtex que podem se opor a uma reação emocional não funcionam plenamente até a idade entre 18 e 36 meses - diversos meses após a amígdala e outros centros emocionais do cérebro terem se ativado. Isto pode explicar, segundo LeDoux, porque os bebês estão sujeitos a explosões emocionais tão freqüentes e incontroláveis.

 

A maturação retardada do córtex pode ter implicações mais profundas e duradouras, pois a amígdala parece fazer um registro permanente de cada resposta emocional. "A partir de uma idade muito precoce", construímos registros emocionais que subseqüentemente irão influenciar tudo que faremos", diz LeDoux. Os estudos deste cientista sugerem que sem a edição cortical, mais racional e consciente, destes eventos, aparentemente as fobias adquiridas no início da vida não podem ser apagadas. Estes achados foram publicados no "Journal of Cognitive Neuroscience" em 1989. Quando LeDoux evitou cirurgicamente que o córtex dos ratos influenciasse a resposta da amígdala aos estímulos recebidos, os animais jamais perderam seu medo condicionado de um flash de luz que anteriormente era associado a um choque nos pés. Em contraste, os animais normais deixaram de temer a luz após um curto período em que ela passou a ser emitida sem os choques simultâneos.

 

De acordo com LeDoux, o medo do flash de luz nos animais cirurgicamente alterados estava aparentemente sendo mantido por suas amígdalas como uma memória emocional permanente. LeDoux afirma que "a amígdala não parece ter um apagador".

           

        Presumindo que um cenário semelhante exista em seres humanos, uma fobia adquirida no início da vida, antes da maturação do córtex - um medo de cães por causa de uma mordida de cachorro ocorrida com um ano de idade - seria retida pela amígdala como uma memória inconsciente. A terapia que inclua pensamentos racionais para manter o medo limitado pode controlar a fobia. Já que a fobia não pode ser apagada da amígdala, ela pode vir à tona durante uma ocasião estressante. LeDoux afirma que "uma pessoa pode ter medo de alturas, com o qual a terapia trabalhou bem até que a mãe do paciente venha a falecer. Então, subitamente, a fobia retorna. Isto sugere que as memórias emocionais nunca são eliminadas, porém meramente mantidas sob controle".

           

        A amígdala também tem forte influência sobre nossas memórias conscientes. Para a maioria das pessoas, as memórias com grande conotação emocional têm muito maior clareza e riqueza de detalhes do que as ocorrências corriqueiras. A maioria das pessoas nascidas antes do fim dos anos cinqüenta lembra detalhadamente o que aconteceu com elas no dia em que o presidente americano John F. Kennedy foi assassinado. Devido ao forte impacto emocional que o evento teve sobre elas ou sobre as pessoas próximas a elas, os detalhes daquele dia são recordados mais claramente que aqueles do dia anterior ao acontecimento.

 

            Mais uma vez, a amígdala tem um papel neste fenômeno de memória de "facho de luz". Estudos feitos com símios revelam que tanto a amígdala quanto outra estrutura cerebral chamada de hipocampo são necessárias para que as memórias se tornem permanentes. Quando Mishkin e seus colegas do NIMH removiam estas duas estruturas, os macacos não conseguiam mais desempenhar tarefas simples que macacos normais executam com facilidade. Estudos mostram que pessoas que sofreram lesões em hipocampo e amígdala não podem reter informações novas, ainda que as suas memórias de eventos anteriores à lesão cerebral permanecem intactas.

 

Estes achados convergentes têm levado os pesquisadores a especular que a amígdala e o hipocampo servem como um filtro para a memória, permitindo a estocagem permanente no córtex apenas para informações significativas. Mishkin sugere o seguinte cenário : um indivíduo tem uma experiência com significado emocional - o nascimento de seu filho. As imagens e sons deste nascimento vão simultaneamente ao córtex, à amígdala e ao hipocampo.

 

            A natureza emocional desta experiência desencadeia a liberação de diversas substâncias pela amígdala e hipocampo, inclusive opiáceos, que percorrem os numerosos trajetos de neurônios que conectam estas estruturas ao córtex. Quando chegam ao córtex, estas substâncias desencadeiam as alterações anatômicas que são necessárias para que as memórias de longo prazo formem as imagens e os sons do nascimento. No raciocínio de Mishkin, quanto mais intenso o significado emocional dos eventos percebidos, maior a quantidade de substâncias liberadas por amígdala e hipocampo para fortalecer as memórias. Mishkin afirma também que um processo semelhante pode permitir à amígdala influenciar a percepção, permitindo-nos "filtrar aquilo que desejamos ignorar e aumentar a percepção daquilo que apreciamos". Os numerosos trajetos neuronais entre a amígdala e aquelas partes do cérebro que interpretam as nossas percepções sugerem que esta influência seja possível. A experiência genérica e diversos estudos revelam que o estado de espírito pode ter grande influência sobre a percepção. Uma pessoa entusiasmada irá "ouvir" mais durante uma palestra do que uma pessoa entediada presente ao mesmo evento.

 

Mishkin diz que "não é necessária a presença de sentimentos muito intensos tais como terror ou tristeza para que as emoções tenham um papel central em nossas vidas. Interesses, afeto, entusiasmo - este tipo de emoções está conosco todo o tempo, sem que prestemos atenção suficiente a elas.

 

VOLTAR


HOME