Professionalismo e Espiritualismo em Terapia de Vidas Passadas: Um Chamado Para os Doutores Bruxos

por Hans Wolfgang TenDam

Tradução de Edison Flávio Martins

Publicado no The Journal of Regression Therapy, Vol.VIII, Nº.1, Dezembro de 1994

Onde existir uma batalha, sempre serão encontrados tesouros eternos. Onde colegas vivem em mundos separados, podem ser construídas pontes interessantes e valiosas. Entre profissionalismo e espiritualismo existe uma tensão perpétua, como deve haver. Quando tais tensões se manifestam em, como se diz, uma mesma família, nós vivemos nisso que os chineses  chamam de "tempos interessantes".

Para entender a tensão entre profissionalismo e espiritualismo precisamos entender a tensão entre intelecto e intuição. Nosso intelecto está como um dono de casa trabalhador que faz coisas passo a passo, com uma seqüência lógica conhecida e acima de tudo de modo fidedigno. Nossa intuição é mais parecida a uma “femme fatale” que nos conduz diretamente à experiência de pico como o golpe de um raio. Até mesmo as loucuras do intelecto são estúpidas, enquanto as loucuras da intuição fazem a vida parecer muito mais significativa.

Em minha mente não há nenhuma dúvida de que o desenvolvimento da civilização segue o desenvolvimento do intelecto. Grécia e Roma são nossas raízes. Porém, o intelecto vitorioso repeliu as pessoas com mais sensibilidade e intuição. Quando a religião se tornou uma instituição para os pensadores de província, as pessoas que sentiam e pensavam diferentemente tiveram que se retirar para os bosques e as colinas. No fim isto conduziu à confusão dolorosa da caça às bruxas.

É difícil institucionalizar a intuição. Nossas instituições preferem o intelecto. Mas, como Churchill comentou, "Primeiro nós moldamos nossas instituições, posteriormente nossas instituições nos amoldam". Há alguns séculos atrás, o racionalismo emancipou-se da religião estabelecida e cultivou seu próprio estabelecimento universitário. Aqueles estabelecimentos tornaram-se muito fortes e o desenvolvimento científico contínuo teve que se emancipar novamente das universidades. As sociedades científicas desembocaram no nascimento da ciência moderna, enquanto universidades entraram em decadência há quase um século atrás. Daniel Boorstin discute isto em Os Exploradores.

No século 19, o espiritualismo e mais recentemente a teosofia começaram a perturbar os religiosos e os estabelecimentos científicos. Ambos hoje experimentam um renascimento, com uma superabundância de espiritualidade alternativa. Até mesmo a chamada bruxaria está criando sua própria doce vingança, como testemunha o sucesso fenomenal de livros como “As Brumas de Avalon”. O Shamanismo está voltando. E a Terapia de Vidas Passadas está contribuindo e potencializando o desvanecimento religioso e científico. Nós os terapeutas de vidas passadas somos os heróis improváveis na luta contínua entre intelecto e intuição, entre estabelecimento e inovação. Nós solucionamos problemas considerados difíceis de serem encarados com uma visão aberta de conceitos antes inimaginável.

O profissionalismo é a prática institucionalizada. Seu instinto é desencorajar inovações, e se apesar disto a inovação acontece, ela é enquadrada nos procedimentos legítimos. Profissionais são fidedignos e eficientes, quer dizer, em caminhos bem conhecidos. Em estradas novas e aventureiras eles são batidos pelos amadores. Doutores de terapias realmente novas são batidos por bruxas. As bruxas têm as próprias tradições deles/delas e acariciam teorias, mas estão permitindo que estas tradições sejam mais difundidas e passíveis de experimentação.

 Dentro da APRT hoje, as bruxas começam a reclamar que os doutores estão exagerando em cima destas novas terapias. O que deveríamos fazer sobre isto? O que podemos esperar disto? O que está acontecendo na APRT tem uma explicação mais abrangente. A questão geral é escapar do racionalismo unilateral e tacanho sem pular para dentro de uma intuição desenfreada como uma panacéia.

A turbulência de nossa época é causada por uma elaboração puramente intelectual. Respostas puramente intuitivas nos conduzem a caminhos sem saída. Por favor. Chega das tolices de comitês de peritos eriçados! E mais nenhum admirador deslumbrado, por favor! Quem viu um, viu todos.

As pessoas mais envolvidas na busca da integração necessária entre intuição e intelecto são as pensadoras profissionais e solucionadores de problemas como desenhistas, engenheiros, doutores e detetives. E terapeutas. Pessoas que combinam intuição e intelecto são como um catamarã: robusto e próprio para o alto-mar, mas ao mesmo tempo leves e flexíveis. Dentro da APRT, nós deveríamos estimular o intelecto sem exorcizar a intuição. O casamento entre intuição e intelecto é de qualquer maneira muito mais divertido que o descarte de um dos lados. Tal casamento deve ser processo institucional que equilibre as bruxas e os doutores e os façam interagir. Também é um processo individual dentro de nós mesmos que nos transforma em bruxos doutores.

Como um processo institucional, o desafio é ter bruxos que respeitem doutores e doutores que respeitem bruxos. Afinal de contas, nós precisamos um do outro. Alguns doutores e alguns bruxos iniciaram este processo. Muito tem sido feito pelos bruxos: os voltados para as abordagens alternativas. É necessário também que mais seja feito pelos profissionais.

A tensão entre as duas abordagens tem um sabor especial: a dimensão espiritual. Os bruxos apreciam isto, os doutores desconfiam disto. Os bruxos suspeitam que os doutores podem matar a espiritualidade e os doutores suspeitam que os bruxos possam usá-la para escapar a um escrutínio racional

Sérias objeções podem ser feitas sobre o modo de trabalhar de muitos terapeutas alternativos, e eu posso fazer uma lista sobre o modo como muitos terapeutas populares se intrometem de maneira superficial em terapia de vida passada ou em qualquer psicoterapia. Uma pesquisa holandesa não achou nenhuma relação entre efetividade de terapia e nível educacional do terapeuta. Esta é uma conclusão séria para aqueles de nós que possuem um grau universitário. Mas não é uma desculpa para os amadores alternativos que pensam que podem fazer qualquer coisa que está tudo bem.

Posso antever um cenário sombrio: doutores discriminando bruxos ou bruxos assustando doutores. Se a escolha tiver que ser entre um ou outro estou fora disso. Não costumo escolher entre o diabo e o mar azul profundo. Especialmente quando podemos caminhar entre os anjos na grama verde luxuriante.

Agora chegou o tempo para o escritor se esmerar. Onde ele está? Como o leitor perceptivo já terá adivinhado: Eu tenho duas mentes. Quando eu cresci passei diretamente dos livros infantis aos livros de ocultismo. Na escola, história era meu principal interesse, mas matemática e física eram meus melhores assuntos. Estudei quatro anos de psicologia e três de pedagogia. Menosprezei aquelas matérias não por serem pouco ou muito científicas. Estatísticas, o pesadelo da maioria dos estudantes de psicologia, era um assunto que eu desfrutava - e ainda gosto. Lecionar sobre estas matérias me forneceu minha primeira renda de freelancer, mas Kurt Lewin em seu “About Aristotelian and Galilean Modes of Thought in the Social Sciences“ (Sobre as Maneiras Aristotélica e Galileana de Pensar em Ciências Sociais) confirmou minha suspeita de que as ciências do comportamento estavam imitando as ciências exatas do modo errado.

 No ano passado eu estava jantando com uma terapeuta brasileira de vidas passadas e o marido dela que trabalhava em uma multinacional de alta tecnologia. Eu lhe perguntei o que ele pensava deste mundo estranho de vidas prévias e estados intermissivos. "O que posso dizer eu", ele respondeu, "eu sou um físico treinado, assim o que vier eu aceito".  Minha experiência como consultor de administração que trabalha com organizações de pesquisa científicas confirma ser essencial uma mente aberta para se praticar uma ciência apropriada. Os físicos mais respeitados são os teóricos. Eles se envolvem em especulações rigorosas: especulação que tem que ser interiormente consistentes e em última instância conduz a resultados testáveis. Cientistas de segunda classe se envolvem com ocorrências desprovidas de sentido tratando-os com estatísticas, sem nenhum raciocínio estrutural para provar ou contestar teorias. Eles esperam construir teorias a partir de hipóteses sem sentido em vez de derivar hipóteses testáveis de teorias interessantes. Cientistas de terceira classe crêem que tudo tem que ser provado e um erro não pode ser provado como verdade e que tudo que não possa ser provado é falso ou pelo menos não merecedor de consideração.

Minha abordagem foi influenciada por meu consultor empresarial e pela semântica geral de Alfred Korzybski, um precursor da Programação Neurolinguística. Gina Cerminara escreveu uma vez que se ela tivesse que votar em duas coisas que a maioria da espécie humana precisa, ela votaria em conhecimento de vida passada e semântica geral. Meu voto também seria igual.

Eu atribuo meu sucesso em terapia de vidas passadas por eu ser um amador. Eu pude inventar enquanto progredia e tive que escutar a meus clientes. Eu não comecei como um profissional. Comecei como um amador que foi arrebatado pela abrupta beleza desta atividade. A relação entre terapeuta e cliente é como uma “jam-session” ou, até mesmo, como uma dança. Sessões catárticas têm uma qualidade sinfônica na maneira como a história se desdobra, com os temas sendo desenvolvidos redimindo a crise durante a revivência.

Este processo sempre tem uma dimensão espiritual, as vezes explícito, mais freqüentemente implícito. Experimentando outra vidas, percebemos que somos mais que um corpo físico tímido, nós somos espiritos, nós somos almas. Isto fica mais evidente quando se experimenta o pós morte ou o nascimento, como acontece muito freqüentemente. E às vezes os temas que nós encontramos em sessões envolvem respostas básicas para nossa existência em um corpo neste planeta. Então nossa própria origem entra em jogo e também os temas religiosos ou espirituais.

Huston Smith, o escritor de “The Religions of Man diz isto claramente: Religião é espiritualidade institucionalizada. Espiritualidade é religião não institucionalizada. Agora espiritualidade é um assunto obstinado. Faz com que os terapeutas se pareçam com os padres. Nos faz especiais e profundos. A maioria de nós gosta disso. Nos faz importantes. Introduzir realidades espirituais como Guias e o “Eu Superior” em uma sessão, encurta o tempo do processo terapêutico. Eu desconfio que, especialmente quando eles são convidados. A presença do “Eu Superior” implica sutilmente que o cliente é um ego inferior, e guias implicam sutilmente que o cliente pode ir para direções erradas sem eles.

Podemos encontrar nas experiências anteriores de nossos clientes a combinação deles se sentirem espíritos e ao mesmo tempo estarem no plano terrestre. Há pessoas cujas experiências necessitaram de bom senso e intuição em grandes quantidades: marinheiros, viajantes, exploradores. Há a experiência particular do oficial comandante no campo de batalha, especialmente de um grupo pequeno e independente de homens. Então um líder conhece seus comandados e é responsável pela maioria dos assuntos terrenos e espirituais: vida e morte, bem e mal. Essas pessoas equilibradas são heróis e curandeiros. E há mais: parteiras, enfermeiras, mães. Eu às vezes acho esta combinação em vidas ciganas, freqüentemente em vidas de padre quando os padres também eram os magistrados. Finalmente, presenças animais ou energéticas são experiências eficientes para ancorar o espiritual no físico retendo a glória de ambos.

O aspecto espiritual deveria fazer parte de nosso trabalho, não como uma simples vestimenta, ou pior: um atalho. Nosso trabalho é espiritual porque as pessoas são espirituais, não porque adicionamos uma dimensão espiritual. Clientes usualmente podem acessar camadas profundas da consciência e nós temos que acompanhar aquele movimento gracioso. Mas sempre tem que ser a experiência deles/delas, a atividade deles/delas, o esforço deles/delas, o sucesso deles/delas, sem qualquer intervenção que pareça diferente de sua consciência habitual. A consciência deles/delas deve ser ampliada, não subordinada.

A relação entre nossa consciência habitual e nossa consciência ampliada não é entre um eu inferior e um Eu Superior. É uma relação hológráfica: As partes contendo o todo. A concepção holográfica da personalidade é poderosa. Primeiro a relação entre nossa personalidade principal e nossas subpersonalidades é hológráfica: nós somos cada uma de nossas subpersonalidades, e cada subpersonalidade representa nossa personalidade principal. A mesma relação segura entre nossa personalidade maior (ou alma) que encarna em muitas personalidades diferentes. Todas nossas personalidades prévias gostam de nosso presente. São fragmentos de nossa alma. Eu iria um passo adiante. Sugiro que a relação com nossa fonte seja uma holografia: nós somos representações cheias de quem ou tudo que nos criou. Percebendo isto podemos entender o significado de "Eu sou um com o Pai".

Em uma sessão de terapia nós não deveríamos chamar o Eu Superior. Deveríamos tornar isto implícito. Depois da morte e antes do nascimento, eu uso a expressão "vai para um lugar de avaliação". Isto implica que o cliente é capaz de se avaliar. Clientes não deveriam fugir da experiência por temor de algo maior, eles deveriam tornar-se maiores. Eu pleiteio o espiritualismo como uma valorização, não uma substituição do humanismo.

Parece-me que uma abordagem segura me leva a considerar nossa vocação como uma arte, e assim me sinto um artífice. Há muito profissionalismo nisto, mas que não deveria ser dominante. Perceptividade, confiança e uma inteireza quase artística devem apoiar o método, não dirigi-lo. Alguns de nós podem ser mais profissionais, outros podem ser mais artísticos, e a maioria de nós será mais artístico nesses momentos com esses clientes que fazem isto possível, e mais metódico em outros momentos ou com outros clientes quando o espírito nos move menos, mas nós ainda temos que entregar um pedaço de trabalho sólido.

Em nossa arte, tocamos assuntos verdadeiramente espirituais: experiências religiosas e místicas em vidas anteriores, do pós-morte e pré nascimento de grande intensidade e significado, de ajuda aos rejeitados, experiências de quem nós éramos e onde nós estávamos antes de nossa primeira encarnação. Nós não buscamos essas experiências para sentir-nos grandes ou importantes, mas porque existe uma cura a ser feita. Os clientes estão tomados pela dor e é preciso que eles solucionem a dor. Eles são parte de nosso negócio, uma parte especial para nossa segurança. Terapeutas que evitam tais experiências estão em desvantagem, terapeutas que buscam tal experiência enquanto evitam o terreno arenoso do comércio são valorizados.

Nós somos os curandeiros. Não nos deixemos maravilhar se nós também pudermos ser os padres. Deixe para os padres pensarem que eles são os curandeiros. A maioria dos padres são professores, poucos são curandeiros. Somos professores reservados enquanto estamos curando. Deixemos nutrir nosso ego com aprendizagem. E sobre o princípio espiritual, nos deixe simplesmente reconhecer isto em nossos clientes. E em nós mesmos. Nos deixe praticar "silencio nos níveis objetivos”, como Alfred Korzybski chamou isto. Algumas coisas se resolvem melhor quando não faladas.

Um padre verdadeiro é professor, curandeiro e um guardião da chama. E não há nada de errado em ser um carpinteiro ou um pedreiro.


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