Reescrever a Historia Pessoal: Sim ou não? Uma Opinião

Hans W. TenDam   

Traducão: Edison Flávio Martins   

 

Publicado no The Journal of Regression Therapy, Volume XIII (1), 1999

 

Hans Wolfgang TenDam, é holandês e  graduou-se em psicologia e pedagogia na  universidade de Amsterdã.  Durante vinte anos atuou como Terapeuta de Vidas Passadas e publicou diversos livros, incluindo “Panorama da Reencarnação” e”Cura Profunda” ambos publicados no Brasil.  TenDam é o diretor do IRT, um programa de treinamento certificado pelo IBRT nos Países Baixos.


 

Reescrever a história é um crime. Reescrever a história pessoal de alguém é um crime contra o indivíduo - até mesmo quando solicitado. Reescrever é algo feito por pessoas que não entendem o que é terapia, provavelmente porque eles não entendam sobre o que a vida e as pessoas são.

 

Há duas maneiras de reescrever: Uma feita pelo cliente sem o conhecimento do terapeuta, e outra induzida por uma intervenção do terapeuta. É muito fácil para os clientes reescrever suas histórias, pois eles resistem em enfrentar suas verdades por vergonha, culpabilidade, humilhação, ou medo. A memória verdadeira está subjugada, para não ameaçar sua autoimagem.

 

O pior tipo de intervenção para mudança de historia pessoal que eu já vi foi feita por um colega terapeuta que aconselhou um cliente a simplesmente apagar uma vida prévia que o aborrecia. Apagar uma parte de nossa própria experiência provavelmente é impossível. Uma intervenção psicológica apaga apenas uma capa superficial da experiência permanecendo outra parte mais profunda na consciência que não pode ser acessada. Apagando o que realmente aconteceu estamos apagando o que nós fizemos, o que nós sentíamos, o que nós pensamos, o que nós quisemos ou esperamos, o motivo pelo qual nós choramos talvez. Uma parte de nossa alma é apagada. É ego-amputação. Substituir uma memória ruim por uma boa pode facilitar o trabalho no momento, mas ao longo do percurso será pior. Não só nos amputamos, mas também adicionamos um membro artificial que pensamos ser parte de nós mesmos. Em vez de um acontecimento terrível, agora podemos dizer: "como sou sábio e corajoso, como eu anulo meus oponentes, como tenho sucesso. Adquiri um diploma de alguém que pretende ser a parte que bate, humilha e castiga, como nossa fantasia preferir”. Reescrever a própria historia é como entrar no mundo dos mitos, não fantasiando o que vamos fazer, mas o que fizemos.

 

Como terapeutas podemos suspeitar que uma historia ou parte dela é uma fantasia do cliente. Um bom terapeuta pode descobrir a diferença mais rápido que um mau terapeuta, mas nenhum consegue sempre distinguir entre fantasia e realidade. E o que fazer com a distinção está fora do escopo deste artigo. Apenas quero comunicar uma observação que provavelmente muitos colegas já conhecem. Durante uma sessão em que se desenvolve uma historia que inclui fantasia, as reações são muito semelhantes às de uma historia real.  Claro que, um ator talentoso que mais ou menos conhece o que está fazendo pode nos enganar, mas a maioria das pessoas não são atores talentosos. Cargas somáticas especialmente no começo da sessão são indicadores bem fidedignos de que o que está acontecendo é real ou não.

 

Há uma exceção muito importante para isto: Se a experiência original contiver muita confusão não conseguimos distinguir entre fato e fantasia. Lá a situação não era clara e certamente agora também não é. Nós podemos encontrar confusão com pessoas relativamente jovens e saudáveis que morrem lentamente com tortura em um campo de batalha ou esmagado em um edifício demolido. Eles enlouquecem e no fim não sabem mais se estão dentro ou fora de seus corpos ou se eles podem estar tanto fora quanto dentro ou se podem alternar. Claro que o mesmo é verdade para alguém vivendo e morrendo em um asilo de loucos. Guiar pessoas através de tais experiências é mais difícil que por situações complicadas e dolorosas, mas em que suas mentes permaneceram intactas. Para trabalhar vivências normais procedimentos associados são normalmente os melhores; experiências que contenham confusão requerem procedimentos que são basicamente dissociativos. Em tais casos, a associação normalmente deve acontecer só no fim da sessão depois da história ser reconstituída de um ponto de vista dissociado.

 

O que faz com que os terapeutas modifiquem a história do paciente? O argumento que ouvi da maioria é que não importa o que realmente aconteceu contanto que o cliente se sinta bem agora. Se você acredita que, não há nada contra reescrever, este deveria ser até mesmo o seu procedimento preferencial. Construa o passado dourado no qual todo o mundo o amou e em que você era feliz e próspero e todos estes sentimentos lhe farão bem. E você vai ficar feliz e próspero agora mesmo em sua vida. Pessoalmente, eu acredito que isto só é eficiente em alguns casos e só a curto prazo. Entretanto o que você esta fazendo não tem a ver com cura ou terapia. Se as pessoas entram em um período traumático confuso, elas podem se sentir como espectadores impotentes, vítimas ou perseguidores. O último papel pode ser o mais difícil e condensado. Ainda que uma história seja bastante longa, especialmente para o início de um período traumático, seja aquele prólogo no céu ou na terra, é possível entender o que aconteceu e por que as pessoas fizeram o que fizeram. Isso não significa que nós temos que condenar as ações dos outros ou de nós mesmos, e certamente não temos que perdoá-los, mas apenas entendê-los. Isso trás uma nova paz à mente onde o acontecimento terrível adquire seu lugar. E algo acontece à nossa alma que é muito mais valioso que se sentir feliz e radiante novamente. A alma se torna mais profunda. A alma cresce.

 

Essas experiências são difíceis de descrever ou definir, mas quem experimentou tal coisa com ele mesmo ou em um cliente, saberá o que estou querendo dizer. No fim, substituir experiências ruins por experiências boas fantasiadas implica que nós não concordamos com o mundo como ele é. Se nós tivéssemos criado esta realidade, teríamos evitado estas coisas tão terríveis. Mas nós não criamos esta realidade – ainda bem.

 

Nós nos diminuímos quando suprimimos recordações ruins. Crescemos quando as digerimos. Até mesmo o canto mais escuro em nossa alma é uma parte de nós, é parte do que nós somos. Parece-me que não há argumente, que justifique reter a escuridão de desespero, culpabilidade ou terror em nós. Se abrirmos essas sombras escuras, entrarmos nelas, e as solucionarmos, sempre sobrarão os restos, uma sombra da velha dor. Mas essas sombras não nos estão diminuindo, eles não diminuem a luz, mas sim criando as cores mais maravilhosas que nunca iriam existir quando havia somente pura luz.

 

Somente em um aspecto eu uso a reescrita da historia. Para investigar o que aconteceria se o cliente tivesse tomado uma decisão diferente. Isto não é reescrever a historia. É conhecer o “e se” da historia. Que aconteceria se eu suportasse a tortura e não enganasse meus camaradas? O cliente poderia descobrir que eles foram pegos apenas no dia seguinte. Ou descobrir que dois deles sobreviveram à guerra. Este “e se” não estará suplantando o que realmente aconteceu, mas apenas fornecendo um pouco mais de informação.

 

Se as pessoas estão aborrecidas pelas recordações da vida presente, ou as induzidas em regressões, temos que trabalhar os fatores que lhes impedem de digerir o passado: medos, sentimentos de insatisfação, de ser desprezível, impotente ou culpado. Claro que tudo aquilo resulta em um reenquadramento da historia. Poucas terapias são efetivas sem reenquadramento mental ou emocional, ou ambos. Assim minha posição é simples: reenquadrar normalmente é uma virtude, se a busca consciente aconteceu espontaneamente.

 

Reescrever é um vício, não importa se acontece espontaneamente ou por procura consciente. Mas nem toda reescrita é positiva. Há um tipo de reescrita que alguns terapeutas (às vezes inadvertidamente) fazem para converter um cliente a seu próprio ponto da vista, sua filosofia de vida, sua perspectiva religiosa.  Em vez de pedir o que querem fazer caso descubram que algo terrível foi feito por alguém a ele, instruem o cliente a perdoá-lo, enviá-lo para à luz escoltado por anjos e tudo isso. Eu não considero essas intervenções criminosas, mas como sendo pobres e pouco profissionais.

 

Se você concluir agora que não gostou deste artigo, imagine que você nunca o leu. E se ninguém gostar dele, eu vou imaginar que nunca o escrevi.


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