VIDAS PASSADAS: PROBLEMAS PRESENTES

Roger Woolger
tradução: Maria Elisa de Campos Salles

Roger Woolger, psicoterapeuta, está trabalhando com um paciente. Este homem tem sofrido dores terríveis em suas costas, já faz um longo tempo. "Entre em contato com a dor, e veja o que você percebe", Dr. Woolger sugere gentilmente.

Leva cerca de 5 a 10 minutos para o paciente ser capaz de colocar seus sentimentos em palavras, mas hei-las, amargura ... e ressentimento. "Quando nada mais vem à tona, Woolger coloca pressão nas costas do homem, diretamente sobre o foco da dor. Subitamente o paciente tem um violento ataque de raiva, "Você disse que era meu amigo !!" ele grita, e se deixa ficar numa tristeza passiva: ele é um soldado em um campo de batalha e acaba de ser morto por um dos seus - apunhalado nas costas. Esta é uma etapa do andamento de uma sessão do Dr. Wooler. Ele alega ter atravessado uma dimensão oculta relacionada com nossos problemas presentes: os efeitos de nossas vidas passadas.

Como era de se esperar este participante de um dos "workshops"do Dr. Woolger, não descobriu que ele foi Napoleão, ou a rainha de Sabá, mas como muitos de nós , sua vida passada foi curta e sem importância histórica - abatido pela morte prematura numa batalha com inanição ou doença.

TRAUMA EMOCIONAL

A maioria de nossas vidas e mortes são irrelevantes, mesmo se tivermos sido Napoleão. As vidas passadas que são de grande ajuda são aquelas que estão nos causando problemas agora. Woolger pode estar dando início a um revolução na psicoterapia com sua descoberta de que um trauma emocional de uma vida passada pode por alguma razão ficar bloqueado no corpo - e que nós podemos nos livrar dele e impedir que o trauma nos afete mais.

"Há, principalmente, duas camadas para cada ferida"., explicou Woolger, em meio a um recente seminário na Alemanha. Ele retorna ao soldado traído.

"Encontre um momento em sua vida - hoje - no qual você experimenta sentimentos semelhantes ", ele sugere. O homem relata uma triste estória de sua infância, onde se vê maltratado por seu irmão e de um momento especial, quando tinha 5 anos de idade e que seu irmão o humilhou, segurando-o no chão colocando o pé em suas costas.

Os achados de Wooler em vidas passadas, se correlacionam harmoniosamente com a maneira com que os terapeutas corporais se interessam na correlação corpo-mente e que podem localizar, e aliviar um trauma emocional, que parece ter ficado preso e solidificado no corpo.

É bem conhecido também, que o trauma físico, como o nascimento, acidentes, violência, estrupo e cirurgia, deixa cicatrizes psicológicas. O trabalho com vidas passadas parece mostrar que as feridas físicas, como a da dor nas costas da apunhalada em vida passada, podem ser armazenadas em camadas uma sobre as outras. "Durante uma sessão", diz Woolger, "uma mulher passou espontaneamente para uma vida, onde se viu como vítima de um sacrifício sangrento, onde seu abdome foi cortado e aberto, revivência que trouxe alívio a uma histerectomia que fez um hospital.

Assim, as vidas passadas trazem um novo e excitante nível de compreensão para os nossos problemas de saúde, sejam eles do corpo ou da mente. A medicina convencional lida com sintomas: se você tem um problemas digestivo, por exemplo, experimente este remédio, ou faça uma cirurgia para remover a parte que está incomodando.

A abordagem holística tende ir mais fundo: muda sua dieta, tenta remédios naturais e ao mesmo tempo se preocupa em saber o que está causando o seu stress. Mesmo assim algumas pessoas não se sentem melhor. Assim a psicologia da Nova Era tem encorajado a que olhemos os sintomas como símbolos que despertam sua atenção aos conflitos que você necessita resolver em sua vida. Um problema digestivo estimula a seguinte pergunta: "O que em sua vida você não está conseguindo digerir ? "

As abordagens vão fundo, levando a um trabalho interior, ajudado talvez por alguma forma de psicoterapia. A maioria delas parece apontar para algum evento desagradável da infância. Mas como milhares de pessoas podem testemunhar, você pode saber exatamente a que situações horríveis seus pais supostamente fizeram você passar, mas mesmo assim você continua doente, ou bloqueado pela vida.

"Se , como Woolger acredita, o bebê nasce com todas as cicatrizes de suas vidas pregressas, todas prontas para produzir efeitos em sua nova e atual vida, a mãe não pode ser culpada por elas. " Diz John Rowan, terapeuta. "Desta forma a teoria é politicamente interessante e muito eficaz na prática. "

Woolger explica: "Uma postura corporal não se pode atribuir apenas a hereditariedade, nem a modelagem postural que ocorre através do convívio, por exemplo : Nós estávamos trabalhando com uma mulher em um workshop, que tinha ombros muito arredondados. Ela regrediu para uma vida em que ela era virtualmente uma escrava, que ajudava a construir catedrais e que tinha passado seus dias carregando pesados blocos de pedra. " Do ponto de vista psicoterapêutico, ombros arredondados e peito afundado são associados com o tipo de pessoa que se caracteriza como oral-deprimida, tipicamente alguém que deseja ser amado e foi privado de sê-lo. Não culpe os pais, diz Woolger, pois pode ser que, como milhões de outras almas, esta pode ter encarado o desespero e inanição literal em uma vida anterior..

Assim ele diz, "Um estômago fraco pode trazer memórias de envenenamento, fome, disenteria, em uma vida passada.

Woolger é quase apologético sobre o que vem descobrindo e não alega ter estabelecido "a verdade" - ele diz que pode até ter interpretado algumas coisas erradamente. Ele teve uma formação convencional em Psicologia comportamental e filosofia analítica em Oxford, se graduando como ele coloca, com sua mente academicamente ajustada. Ele tem um quê de samurai intelectual, se deliciando em demolir pessoas com sua lógica brilhante. Depois de seus estudos de pós-graduação em religião comparativa - "onde o assunto da reencarnação nunca realmente surgiu "- ele começou a meditar, descobriu Carl Jung, a imaginação ativa e estados alterados, e estava praticando como psicoterapeuta, quando um experiência com regressão a vida passada levou a mais questionamentos, os quais Woolger tinha respostas..

MEMÓRIAS DE UM MERCENÁRIO

Woolger lutou para encontrar o sentido das suas próprias memórias como um detestável soldado mercenário aparentemente recrutado para massacrar aqueles que não acreditavam em uma das infames cruzadas do Papa no sul da França.

Com a recordação, se verdadeira ou falsa, vieram sentimentos de culpa e um novo entendimento de alguns dos eventos de sua vida presente, tal como o seu cinismo acerca das religiões organizadas e da época em que era um garoto de 12 anos enfurecido e metido em uma briga escolar, que estava pronto para matar seu oponente, e que teve de ser arrastado e separado por outros meninos.

"Eu aprenderia mais tarde que a maioria das pessoas em sua primeira regressão a vida passada, raramente tem memórias tão violentas e horríveis "., ele afirma em seu livro inédito, Other Lives, Other Selves. .

"Como regra, a mente inconsciente - que agora eu acredito que carrega memórias de vidas passadas, assim como eventos infantis esquecidos, e arquétipos - em sua sabedoria, somente, nos envocará memórias passadas, com as quais poderemos lidar, e estaremos aptos a integrá-las em nossa estrutura de personalidade consciente. Aqueles que possuem pouca experiência em terapia ou meditação geralmente iniciam o processo terapêutico suavemente..

Fragmentos de vidas passadas freqüentemente aparecem em sonhos, ou momentos inesperados, talvez na forma de habilidades inexplicáveis, ou através de sentimentos de familiaridade com lugares, períodos históricos, personagens, etc. A teoria pode explicar a natureza confusa dos relatos de crianças sobre abuso: a maioria deles nem completamente imaginários, nem completamente verídicos, sugere Woolger. O abuso da infância leva ao choque, que pode colocar a criança num estado psicológico alterado, ele pensa - "E nesse estado ele pode entrar em contato com fragmentos de memórias de vidas passadas."

O que ele está querendo dizer com isso, é que desconhecidas e não resolvidas, nessas vidas passadas podem estar interferindo com nosso presente. Violentos, jovens e imaturos arruaceiros ? Milhões de adolescentes morreram em batalhas, tendo suas vidas podadas antes mesmo delas começarem. Adultos reprimidos e com baixa energia ? Quantos de nós perdeu entes queridos, vendo nossas famílias exterminadas pela guerra, pela peste, sem que vivenciássemos o luto ? Se gasta muita energia para bloquear sentimentos de dor, especialmente quando sabemos que deveríamos ser felizes. Medos irracionais de afogamento, de tubarões, de quedas - a lista é sem fim.

Ele não está sugerindo que todos os nossos problemas se devem as experiências de vidas passadas, nem que todas as vidas passadas causem nossos problemas de hoje. O fator crucial e decisivo parece ser a forma com que morremos. Parece que trazemos conosco para nossa vida futura o registro de eventos que envolveram nossa morte. E se ela foi particularmente traumática, tanto física como emocionalmente, e se tivemos tempo de elaborar a dor física e emocional - para trazer paz - então iremos trazer essa dor conosco em nossa próxima encarnação.

O estratagema não é apenas se dar conta que você morreu em um campo de batalha, mas que você alivie toda carga de sua morte, "em um nível físico consciente. "Uma técnica semelhante foi utilizada com pessoas vitimadas pela neurose de guerra, particularmente comum durante a guerra de 1914-18. Essa experiência nos dá algumas pistas; parece que quando os eventos que nos rodeiam se tornam insuportáveis, temos a habilidade de nos desligarmos - a mente simplesmente apaga a experiência . Nós ainda estamos lá no campo de batalha com todas aquelas bombas explodindo ao nosso redor, mas retiramos nossa consciência do fato. O corpo, porém, continua registrando o trauma e a dor, mas nós efetivamente não estamos lá, conscientemente.

O processo de se livrar as vítimas da neurose de guerra é o que Woolger prescreve: elas são ajudadas a se livrar com segurança dessas memórias, para depois integrar o choque mental com a dor física.

A compreensão do que realmente acontece na terapia de vidas passadas pode não ser em si tão importante - o resultado é o que realmente conta, e não importa se as estórias são verdadeiras ou se elas poderão ser historicamente comprovadas, diz Woolger. E além disso a maioria de nós comete erros e esquece coisas, quando tentamos nos lembrar de fatos de nossa vida atual, mas nossos amigos e parentes não ficam pensando que estamos imaginando coisas, simplesmente porque nós erramos uma data aqui, confundimos um nome lá.

"Nós não precisamos interpretar"ele diz - "e não precisamos acreditar em reencarnação. Apenas aceite que a mente inconsciente, traz uma estória quando uma cura é necessária. A coisa mais importante é o alívio daquilo que ele chama "energias bloqueadas "."Por aproximadamente uma década conduzindo clientes e colegas através de regressões à vidas passadas, e dando continuidade a minha exploração pessoal, eu passei a ver essa técnica como uma das ferramentas mais poderosas e concentradas disponível à psicoterapia desprovida de drogas psicodélicas, diz Woolger.

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