OS 7 CHÁKRAS E O DINHEIRO 

Kinder, George[[1]]

O consultor financeiro americano e professor de budismo George Kinder mostra como a filosofia oriental pode nos ensinar a enfrentar conflitos existenciais com dinheiro.

 “Concordo com o que você disse, mas é duro admitir que é verdade”.

 

O desabafo acima me pegou de surpresa. Veio de uma pessoa que eu conhecia de vista há anos, alguém por quem sentia ao mesmo tempo admiração e antipatia. Admirava-o pela tarimba como planejador financeiro, a mesma profissão que exerço. O sujeito em questão tinha simplesmente erguido uma das maiores e mais diversificadas consultorias financeiras do país. Já minha aversão vinha do fato de que ele defendia sem pudores uma tese que eu abomino: a de que ganhar dinheiro – muito dinheiro – é um fim em si. Daí meu espanto ao ser procurado por ele ao fim de uma palestra minha sobre maturidade financeira. O cenário? Uma convenção nacional de consultores financeiros.

 

Meu colega foi logo ao ponto. “Ganhar dinheiro, eu sei...”, disse. “Faz tempo que venho investindo nas bolsas. Hoje, tenho mais do que o suficiente para me garantir pelo resto da vida”. Naturalmente, dinheiro não era o problema. Qual seria, então? “Dinheiro não basta”, foi a resposta, numa voz que, àquela altura, perdera o tom arrogante. “Falta algo, mas não sei o que é. Falta felicidade. Preciso de ajuda para dar o próximo passo”. Voltava, ali, a me sentir como um padre no confessionário, não um consultor. Não era a primeira nem a última vez que ouviria desabafos como aquele.

 

Na palestra, havia enfocado a sintonia de metas financeiras com a satisfação pessoal, um tema que há tempos venho martelando para profissionais da área. Quem mexe com consultoria sabe, hoje, que um bom conselho é inútil sem uma noção precisa do verdadeiro objetivo do cliente, do investidor. Dinheiro costumo explicar, é para onde convergem o eu e o mundo a nosso redor. Se um dos fatores for negligenciado – o interno ou o externo -, não há equilíbrio possível na vida.

 

Quando o assunto é dinheiro, é comum achar que só o quanto se tem importa. Mas não. É preciso, antes, saber qual a relação entre o indivíduo e o dinheiro. Maturidade financeira significa resolver todo conflito interno ligado a dinheiro. Significa, acima de tudo, sentir-se à vontade no trato com o dinheiro. Afinal, o que é o sucesso sem tal equilíbrio?

 

Desejo de liberdade – A necessidade de alcançar paz de espírito no campo financeiro não é exclusiva de quem tem o cofre cheio. Está presente também em gente com poucos recursos, na classe média, e em gente que herda grandes fortunas. Quando alguém me procura em busca de assessoria financeira, o desejo de atingir a maturidade financeira – ou seja, uma relação equilibrada com o dinheiro – está implícito em cada palavra dita. Você mesmo já deve ter dito algo assim:

 

“Quero uma vida rica, não necessariamente em dinheiro, embora reconheça a relação entre as duas coisas”.

“Quero fazer o que tiver vontade, sem me preocupar com dinheiro”.

“Não quero me sentir inseguro em relação a dinheiro para o resto da vida”.

“Quero ser livre”.

“Quero comprar o que achar necessário, sem recursos”.

“Quero fazer algo que me dê satisfação pessoal sem me preocupar com a remuneração financeira envolvida”.

“Não quero ir contra o que  sou ou ferir meus princípios puramente por dinheiro”.

 

Cada desabafo desses traz o desejo de liberdade, o desejo de viver segundo as próprias normas. Quem diz algo parecido que, no fundo, preencher um vazio dentro de si. Quer descobrir sua verdadeira relação com o dinheiro e, a partir daí, conquistar a sonhada liberdade financeira. É justamente essa a promessa da maturidade financeira.

 

Maturidade financeira, porém, não se resume a dominar as regras do mercado financeiro ou a saber fazer um orçamento. Vai muito além: mexe com sentimentos, com o coração e, sem dúvida nenhuma, com a alma. A maturidade financeira põe fim de vez ao conflito emocional em torno do dinheiro. Para muita gente, dinheiro representa tudo, menos paz de espírito. Leia as perguntas a seguir. Se a resposta for sim, você sabe bem do que estou falando.

 

Lutar para viver – Você economiza com um objetivo em mente mas acaba gastando compulsivamente em besteiras? Cobra menos por seus serviços do que deveria? Se recusa a poupar para o futuro? Você se sente preso a um emprego que limita seu potencial e tolhe sua liberdade só porque precisa do dinheiro? Você trabalha como louco com medo de que, se parar por um instante que seja, alguém vá tomar o seu lugar? Você sai do trabalho esgotado e sem disposição para fazer aquilo que realmente lhe dá prazer? Você luta para viver com o que ganha, gasta mais do que pode e vive endividado? Suas conversas sobre dinheiro com a mulher ou o marido acabam sempre em discussão? Você se sente diminuído por ficar em casa cuidando dos filhos? Você gostaria de dizer adeus para sempre a decisões de cunho financeiro?

               

Se uma resposta que seja foi sim, a solução para seu caso é buscar a maturidade financeira.

            

A conquista da maturidade financeira é um processo gradual. São, ao todo, sete etapas que ajudam o individuo a entender os conflitos internos que ele traz desde pequeno em relação ao dinheiro e a agir para soluciona-los. O resultado é uma nova perspectiva sobre o lado financeiro da vida, que leva em conta tudo o que a natureza humana pede, e não apenas a ganância do mercado financeiro ou a ilusão do consumismo desenfreado. Uma pessoa financeiramente bem resolvida abandona hábitos e preconceitos nocivos e leva uma vida ciente da força que possui e das metas que almeja.

 

            Não é uma conquista fácil. Há muitos conflitos emocionais no caminho. Os resultados, porém, são surpreendentes. Quem encarou o desafio adotou um novo modo de pensar e de agir em relação ao dinheiro, descobriu o prazer de tomar decisões práticas, como elaborar um orçamento, criar um plano de investimentos ou dar uma guinada para melhorar na carreira, e foi capaz de dar uma reviravolta na vida e conquistar a liberdade e o equilíbrio há muito desejados.

 

          Quem mergulhou no processo sente uma ligação íntima com cada um de seus estágios. É como se a coisa passasse a fazer parte da pessoa. No trato com questões financeiras, quem chegou à maturidade sente paz, e não desconforto. No processo de investigação do verdadeiro sentido do dinheiro em sua vida, acabou reformulando o conceito de sucesso, que deixou, então, de ser uma quimera. Virou uma sensação palpável, tanto no corpo quanto na alma. Pela primeira vez na vida, essa gente passou a sentir fé no futuro. E tal fé é fruto do novo relacionamento franco no qual há espaço para as falhas e as aspirações mais profundas.

               

O processo pode ser comparado ao da criança que aprende a andar. Primeiro, engatinha. Mais tarde, consegue ficar em pé, ensaia os primeiros passinhos, e daí para a frente deslancha. Ao explorar o passado, as lições aprendidas com a família e a raiz dos hábitos que carrega hoje, você será capaz de identificar tudo aquilo que o aprisiona. Será capaz de identificar aquilo quer o impede de agir.

               

Vai aprender, ainda, a lidar com o dinheiro com sabedoria, energia e determinação. Além de técnicas práticas para criar um plano financeiro, vai aprender a meditar e a analisar o próprio “eu” de forma a eliminar o estresse, a ansiedade e o sofrimento que o dinheiro causa. Vai aprender a agir com vigor em questões financeiras, a buscar seus ideais no tocante ao dinheiro e a operar, sempre, com compaixão e generosidade.

               

Se alguém dissesse, dez anos atrás, que eu me especializaria na cura das feridas que o dinheiro causa na alma, teria caído na risada. No meu caso, a maturidade financeira foi uma conquista lenta, fruto da necessidade de encarar o lado financeiro da vida sem abrir mão do amadurecimento espiritual. No caminho, descobri um jeito de casar harmoniosamente as duas esferas e, com isso, dar à minha existência um sentido muito mais profundo.

            

A uma certa altura me interessei pelo budismo. Os sete estágios da maturidade financeira vem muito dessa fonte. Mas especificamente, cada uma das sete etapas correspondem ao conceito oriental dos sete chakras vitais, centros de energia do corpo de enorme significado na acupuntura, na meditação e no próprio budismo. O budismo me apresentou, ainda, outra grande fonte de inspiração: o poema Bodhicaryavatara (traduzido para o português como O caminho da Iluminação). Escrito por Shantideva, um sábio do século 8, o texto é a matéria-prima do budismo tibetano e ilustra, com clareza, o sofrimento que aflige a existência humana.

 

Filosofia milenar – No universo financeiro, sofrimento é algo corriqueiro: há dor quando o trabalho é penoso, quando o investimento dá prejuízo, quando se perde o emprego, quando a dívida cresce. Embora tenha tratado do sofrimento em escala universal, Shantideva fez questão de frisar sua responsabilidade individual pelo calvário. Em vez de culpar de uma forma externa pelo sofrimento que sentia. Foi buscar dentro de si a fonte da dor. Lá, achou mais do que a raiz do sofrimento: descobriu o que precisava para se livrar de vez das amarras.

               

Na filosofia budista, o reino do sofrimento – ou samsara, segundo Shantideva e o próprio Buda – é a primeira das chamadas Nobres Verdades. Samsara é nobre por que inspira o homem a agir, a entender a origem da dor, a enfrentá-la, a por um fim nela. Contemplar o sofrimento é algo nobre quando, graças à contemplação, o homem sai em busca da liberdade.

 

Centros de energia – Foi essa busca da liberdade a inspiração que encontrei em Shantiveda, que buscava liberdade não apenas para si mas também para o próximo. Vejo a mesma motivação em minha clientela. Quando tento descobrir sua motivação, ouço em resposta o anseio por liberdade: para si próprios, para a família, para os amigos e para a sociedade em que vivem. Shantideva sabia que tal liberdade é atingível e se dedicou à sua busca. Para isso, criou a prática das Seis Perfeições. No processo dos Sete Estágios da Maturidade Financeira (ligados aos sete chakras vitais), os preceitos dessa filosofia milenar são transpostos para o universo financeiro. Veja como:

 

1º. CHAKRA: INOCÊNCIA

           

   Para um recém-nascido, o dinheiro não tem significado nenhum. Toda a sua existência gira em torno da necessidade física por alimento, calor, amor. É o estágio da inocência. Mas o bebê vai crescendo, e aprendendo. Descobre a realidade à sua volta, da qual o dinheiro faz parte. A inocência engloba o modo de pensar e agir em relação ao dinheiro que o indivíduo assimila logo cedo e carrega vida afora, ainda que os fatos insistam em contrariá-lo. Tais crenças vêm de berço. Em geral, são herdadas de pai para filho de forma sutilíssima. Assimiladas, suas raízes por vezes são tão fortes que, mesmo de forma inconsciente, continuamos a sofrer sua influência em toda decisão relacionada a dinheiro que tomamos na vida. A inocência é associada ao primeiro chakra, na base da coluna vertebral. É o ponto ligado a funções básicas de sobrevivência humana, como comer e beber. O apego a crenças arraigadas em relação ao dinheiro está ligado ao instinto natural de sobrevivência, o mesmo instinto do recém-nascido.

    A inocência continua a pesar sobre a vida mesmo encerrada a infância. Encarar tais ilusões e se livrar delas antes que seu efeito nefasto faça um estrago em sua vida é o primeiro passo rumo à promessa de liberdade da maturidade financeira.

Sugiro um exercício simples: colocar no papel tudo o que você ouvia na infância em relação a dinheiro. Você se lembra, por exemplo, da primeira vez em que teve contato com dinheiro? Quando o dinheiro passou a fazer parte da relação entre você e sua mãe?

                Nas recordações de família, qual era o papel do dinheiro? Qual era o lema de sua mãe e de seu pai no tocante a dinheiro? Como foi sua estréia no  mundo dos investimentos, dos seguros, da casa própria, do carro próprio?

                Agora que refrescou a memória, tente sintetizar, em poucas palavras, as grandes lições sobre dinheiro assimiladas desde pequeno. São lições como nunca emprestar dinheiro a parentes, ou a criança de que vai sempre faltar dinheiro? Pense bem: você aceita até hoje tais crenças? Se descartou certas lições, conseguiu ficar em paz consigo mesmo?

 

2º. CHAKRA: DOR

               

    A dor é o contrapeso da inocência. A dor, aqui, representa todo sentimento ou emoção incontrolável e insuportável ligados às crenças assimiladas no estágio de inocência. A dor forma, com a inocência, o ciclo de sofrimento (samsara). É dessa roda de sofrimento que o budista tenta escapar. O sofrimento da existência abrange todo sentimento ou emoção intimamente ligados às crenças mais profundas do indivíduo. São emoções complexas, associadas ao segundo chakra. Centro da sexualidade, ele desperta na adolescência e costuma abrigar conflitos, culpa, vergonha. É o estágio da dor. Nele, há o choque entre a inocência e a realidade. É quando descobrimos que, para ganhar dinheiro, é preciso trabalhar, ou que o mundo é cheio de desigualdades sociais e financeiras.

    A maioria de nós fica num vaivém entre dor e inocência que impede o avanço rumo à maturidade financeira. É o caso de quem vive na crença, inocente, de que é preciso viver apenas o hoje, já que o amanhã é incerto. Quem pensa assim gasta mundos e fundos no presente, sem pensar no futuro. Até que o pânico entra em cena e a dor substitui a inocência. A dor, porém, pode servir como um sinal de alerta. O desconforto do sofrimento pode levar a pessoa à sabedoria. Sem discernimento, sem encarar a dor e ir até sua raiz, não há como chegar à maturidade financeira. Tente:

                O exercício agora é uma continuação da autobiografia financeira iniciada no estágio anterior. Analise, uma por uma, as crenças em torno do dinheiro colocadas no papel. Em seguida, tente descobrir qual sentimento cada uma delas desperta em você. Existe algum padrão nessas reações? Você sente, por exemplo, a mesma sensação toda vez que determinado pensamento lhe ocorre? Isso é um sinal de que está preso no ciclo da inocência e da dor. Quais as conseqüências pessoais e financeiras dessa prisão? Você está preparado para se libertar dela?

                Tenhas em mente que a dor é inevitável. O que é opcional é o sofrimento. Toda vez que a dor bater, deixe que ela se manifeste. Observe qual a reação de seu corpo à dor ligada ao dinheiro. É preciso entender a dor para suporta-la.

 

3º. CHAKRA: RAZÃO

               

  Shantiveda descobriu, logo de cara, que para evitar o retrocesso ao sofrimento seria preciso agir com extrema virtude. Embora no processo de maturidade financeira o estágio da razão seja repleto de detalhes práticos como orçamentos, impostos e investimentos, sua raiz está mesmo na virtude e na integridade. Sem isso, não há relação financeira ou sistema econômico que fique de pé. Sem uma conduta moral exemplar o universo de dados e conhecimentos racionais que se  traduzem, no final, em maturidade financeira.

    A parte prática desse estágio é o processo de planejamento financeiro. Tudo começa quando o desejo de liberdade é traduzido em metas concretas e num plano de execução. É um processo de três etapas: identificação de metas, inventário dos recursos disponíveis para sua conquista e escolha do caminho que leve dos recursos às metas.

    O centro da razão é o terceiro chakra. Curiosamente, é o chakra umbilical, ligado primordialmente à digestão. Em geral, o conhecimento é a área mais difícil para um indivíduo assimilar ou digerir. É algo que costuma exigir um levantamento de tudo o que a pessoa possui e deve, e de sua capacidade para poupar. Mexe com a compreensão do mercado financeiro, de questões tributárias, da aposentadoria e de teoria econômica geral. Não é fácil. Tente:

                O próximo passo em sua autobiografia financeira é descobrir sua noção de liberdade e integridade no quesito dinheiro. Análise sua vida. Qual foi a lição de liberdade, virtude e integridade passada por todos aqueles que contribuíram para seu aprendizado ao longo da vida? Quando sai para jantar com os amigos, você é justo na divisão da conta? Você sente que tratar de dinheiro desvia sua atenção daquilo que realmente importa na vida? Qual é o seu grau de honestidade com o dinheiro? Você comete pequenos ou grandes pecados financeiros? O que acha desse comportamento?

                Agora, ao lado prático. Você tem interesse em saber mais sobre o trato com o dinheiro? Tem metas claras e objetivas? Sabe quanto tempo levará para executa-las? Qual sua situação financeira hoje? Você sabe quanto tem ou quanto deve? Você tem um orçamento? Se tem, cumpre-o à risca? Está poupando para o futuro?

 

4º. CHAKRA: SENSIBILIDADE

               

    Em sua evolução, Shantideva notou que, apesar da determinação em seguir pelo caminho da virtude, haveria sempre um obstáculo à frente. Para evitar as armadilhas que a vida armava, era preciso cultivar uma enorme paciência, que vem a ser a segunda perfeição. O que para o sábio era paciência, a meu ver é sensibilidade. Sua raiz é o 4o. chakra, o centro de energia do coração. É a sensibilidade que ensina o indivíduo a manter a calma e a paz de espírito em meio à turbulência, a ansiedade e ao estresse que emanam de situações que envolvem dinheiro.

    Na raiz de muita dificuldade financeira estão sentimentos frustrantes como inveja, avareza, ganância, vergonha, humilhação e culpa. Para encarar tais sentimentos e saber equaciona-los, é preciso sensibilidade. Sensibilidade é a metamorfose do sofrimento em algo profundo, espiritual. De posse da sensibilidade é possível se sentir à vontade em torno de questões financeiras. Antes, porém, o dinheiro precisa ser encarado como alimento necessário. O dinheiro é o mestre que nos força a encarar a dor: a dor da desigualdade econômica, da pobreza.

                Uma técnica imbatível para desenvolver tal sensibilidade é fazer uma lista de todos os sentimentos que já tomaram conta de você por causa de dinheiro: inveja, cobiça, tristeza, ansiedade, desespero, medo, raiva, humilhação, culpa, pânico. Em seguida, tente lembrar o evento mais marcante associado a cada uma dessas emoções. Observe a cada passo, a reação provocada em seu organismo pelas sensações. Pense agora no futuro: Em que situações você corre o risco de estar, no próximo mês, tomado por tais sentimentos? A idéia é tentar, da próxima vez em que um sentimento desses invadir sua mente, afugentar a memória a ele associada. Pare de pensar. Deixe apenas que a emoção se manifeste em seu corpo. Ao mesmo tempo, tente descobrir a raiz de tais sensações, de tais reações ao dinheiro.

 

5º. CHAKRA: VIGOR

               

    A conquista da virtude e da paciência libertou Shantideva de muitas das amarras que o prendiam. Só então o sábio foi capaz de investir na terceira perfeição. E qual era? A energia, o entusiasmo e o vigor para buscar a tal sonhada liberdade. É este vigor que nos permite descobrir o real significado da liberdade no terreno financeiro.

    Vigor, em síntese, é descobrir o propósito da vida e voltar toda energia para essa meta. O centro do vigor é o 5o. chakra, o da garganta. E é a partir dele que emana a autoridade. Autoridade, no caso, é saber que cabe o indivíduo dar os rumos à própria vida. O vigor surge de uma série de técnicas e exercícios. É sua vez de tentar.

    Primeiro, descubra qual o grau de vigor em sua vida financeira. Existem fatores esternos que deixam você sem ânimo nenhum para tratar de dinheiro? Por outro lado, existe algo que o energize nessa arena? Você contribui para esgotar o próprio vigor? É possível mudar isso? Quando você precisa de vigor, onde você vai buscá-lo?

 

6º.CHAKRA: VISÃO

               

    Visão é o estágio do 6o. chakra. Na Ioga e no Budismo Tântrico é o 3o. olho. De posse da energia necessária à busca da liberdade Shantideva conseguiu seguir o caminho espiritual que leva à visão. Visão significa abrir os olhos. Significa voltar os sentidos para tudo o que nos cerca. Apesar de externo, tal enfoque pode até incluir o ganho pessoal. É a perspectiva do todo, porém, que age como força motriz nessa busca. Hoje, um exemplo de visão é a internet, uma tecnologia que permite a comunicação entre comunidades e indivíduos de todo o planeta.

    Visão, porém, nem sempre equivale a algo grandioso ou globalizado. Pode ser um gesto simples como preservar uma área verde num centro urbano em deterioração ou atuar como voluntário em causas sociais. Visão é entender que cada um de nós e não uma entidade alheia, onipotente, é responsável por tudo o que existe no planeta.

    Nesse estágio a grande revelação é que o despertar para o mundo financeiro tem pouquíssimo a ver com dinheiro em si. Graças à visão, o individuo percebe que o dinheiro. É um mero caminho para a manifestação da alma no universo. Quando nossa sobrevivência está garantida surge dentro de nós a capacidade de ir além, de satisfazer os anseios da família, dos amigos, da comunidade. Nesse estágio, nada obstrui o caminho entre o que somos e o que desejamos ser. É o ponto em que percebemos que nada é realmente nosso, mas uma dádiva a ser partilhada com o próximo.

                Para ativar a visão, é preciso descobrir se há em você um visionário. Volte ao exercício em que definiu suas metas de vida, são metas exclusivamente pessoais ou vão beneficiar também o próximo? Você se acha, hoje, um ser visionário? Com o futuro em mente, que visão você gostaria de tornar realidade? Existem obstáculos à execução de suas visões?  Se a resposta foi sim, qual é a saída para tira-los do caminho? Se tivesse todo o dinheiro que gostaria de ter, qual; seria sua contribuição para o mundo? Saberia agir sem dizimar no próximo a capacidade de ter razão, sensibilidade e vigor?

 

7º. CHAKRA: ALOHA

               

    As últimas perfeições no poema de Shantideva são sabedoria e generosidade. Seu chakra é no alto da cabeça, onde o ser humano se funde com o divino. Quem chega lá reconhece tal energia na hora.

    Um ato de aloha transcende qualquer desigualdade econômica e outra. Aloha é uma palavra que tomei emprestado dos Havaianos. Quem visita o Havaí de passagem acha que Aloha é só um jeito de dizer oi ou tchau. Na verdade, o significado do termo é mais profundo. Aloha transmite a idéia de bondade, generosidade, compaixão.

    Ao colocar em prática o preceito da generosidade e da sabedoria, a pessoa dá sem esperar nada em troca. Quem está em aloha não esquece o poder do dinheiro, nem suas limitações. Só que isso já não o perturba. Sua atitude perante o dinheiro é de serenidade. Nesse estágio, é possível agir em benefício do próximo com a generosidade que existe dentro de cada um e que está ali, à espera da oportunidade de ser manifestada externamente. Aloha não surge do apego à noção ilusória de bondade que trazemos da infância. É, antes, a conseqüência natural de encarar o mundo como ele é e de estabelecer uma conexão profunda e sem mentiras com a realidade que nos cerca.

                A última etapa da autobiografia financeira do leitor é definir sua relação com o estado de aloha. É, novamente, um processo de auto-indagação. Você conhece gente que atingiu o estado de aloha? É gente famosa ou de  seu círculo social? Você saberia agir como tal indivíduo no dia-a-dia? Você já testemunhou atos de aloha? Qual é o seu ideal de aloha? Seria dar e receber? Tente imaginar toda troca possível de aloha entre você e gente em situação social ou financeira distinta da sua, seja para melhor ou pior.

                Os sete estágios são esses. Agora, cabe a você seguir a trilha da maturidade financeira. Ao longo do processo, seu verdadeiro “eu” irá despertar. A cada estágio, você sentirá uma nova energia, uma nova forma de encarar não só o lado financeiro da vida mas a vida como um todo. Como Shantideva, você irá enveredar pelo caminho que leva à liberdade. Não esqueça: o processo de maturidade financeira nunca tem fim. É um ciclo que se renova à medida que novas circunstâncias vêm nos desafiar. Os sete estágios não acabam nunca. A cada instante há um novo começo.

Orígem das figuras: Meraylah Allwood Home Page

Origem do texto: http://www.kinderinstitute.com/About_Us/George_Kinder/george_kinder.html



[1] Kinder , George é consultor financeiro formado na Harvard em 1971. Autor do livro:Seven Stages of money Maturity– Sete estágios para a maturidade financeira, pela editora: Dell Trade Paperback. Este texto e a reprodução do artigo publicado na revista Meu Dinheiro, p. 80-85 em outubro de 2001 com o nome “Os sete chakras e o dinheiro”.

 


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