A AIDS NOS NOSSOS DIAS

Thorwald Dethlefsen*

Freqüentemente associada à passagem de Plutão pelo signo de Escorpião, a Aids foi o mal que mais ameaçou a humanidade neste final de milênio. No momento atual parece haver um certo controle sobre o crescimento da epidemia, e já não se fala tão insistentemente na possibilidade de um extermínio da humanidade, mas houve um momento de grande apreensão nos anos passados, e o perigo ainda permanece. Nenhum outro mal ocupou tão insistentemente a mídia e os meios de comunicação quanto a Aids. Nenhuma outra doença causou tantas mudanças nos padrões sexuais como esta.

O ponto mais importante a considerar na Aids é que esta doença leva ao colapso das forças de resistência do corpo humano, ou seja, ela enfraquece a habilidade do organismo para se fechar aos agentes microbianos externos e impede a defesa contra a sua invasão.

A resistência, a barreira, a defesa, é, em última instância, uma necessidade à preservação das formas. Nós precisamos nos preservar e, por isso, criamos nossos limites. No entanto, existe um sentimento que, no nível mais elevado, só pode manifestar-se quando todas as barreiras, todas as resistências, cessam de existir. Esse sentimento chama-se amor. No nível ideal, o amor é a ausência de todas as barreiras, de todos os limites. O amor acolhe, recebe, sem julgamentos ou preconceitos.

Neste sentido, analisada como sintoma, a Aids parece mostrar no nível microscópico uma manifestação que busca recompor o amor. Como os sintomas sempre mostram aquilo que foi bloqueado no nível consciente de expressão, a Aids aponta o amor que foi perdido animicamente pelo ser, o amor que não conseguia mais manifestar-se por via dos sentimentos.

A explosão da sexualidade, com a liberação de todos os limites, que precedeu a epidemia da Aids, caracterizou-se pela crescente falta de intimidade anímica entre os parceiros envolvidos. Esta explosão, que se acentuou a partir dos movimentos hippies dos anos 60, trouxe à cena da sexualidade humana o sexo pelo sexo, onde os parceiros não tinham nem a mais ínfima linha de intimidade possível. Foi a explosão do sexo sem nome, como mostrava o "Último Tango em Paris". O sexo sem alma, sem envolvimento, sem nenhuma abertura de coração a coração. Este comportamento foi mais acentuado nos meios libertinos, especialmente em certos redutos homossexuais, onde dezenas de relações se estabeleciam numa única noite.

O sexo é apenas a expressão da união no nível físico. Para que haja a completa integração do ser, é necessário que a esta união física corresponda uma ligação espiritual, o amor. É o bloqueio desta possibilidade que faz com que o corpo projete, através da total ausência de barreiras, a expressão que foi negada no nível anímico.

Foi uma espécie de morte coletiva do verdadeiro amor que precedeu a epidemia da Aids. O aidético vê suas resistências se desintegrarem. É obrigado a viver no seu corpo, através dos seus sintomas, a abertura, o acolhimento, a recepção. Suas defesas param de funcionar, e a falência das forças de resistência do corpo irá levá-lo, finalmente, ao colapso, à morte. É notável como certos portadores do HIV, ao passarem a adotar uma atitude de amor amplo e irrestrito, parecem impedir o avanço da doença. Isso parece curar.

A Aids trouxe a era da camisinha, a pele artificial, a separação, o sexo sem o toque da pele. Assim, a geração da Aids, através desta proteção adicional, é obrigada a tomar consciência do seu próprio isolamento, das barreiras que podem estar revestindo a alma, separando os corações e usando o sexo pelo sexo.

Ao se transmitir através do sangue ou do esperma, a Aids mostra que é no nível mais íntimo que se é contaminado, através dos sumos que mantém ou criam a vida. É através destes veículos que a semente da morte será inoculada. E o sangue, mantenedor da vida, não exercerá mais sua função defensiva, guerreira, eliminadora. O sangue perderá toda sua capacidade de reação, abrirá mão de seus anticorpos e acolherá o universo inteiro. E o amor que não pôde ser vivenciado através da expressão sexual, agora se manifesta no sangue.

A sexualidade se relaciona ao corpo físico; o amor se relaciona à alma. Sexualidade e amor devem estar compensados, ou seja, devem estar em equilíbrio. Quando uma ênfase excessiva recai sobre a expressão física, há o risco de suprimir-se a expressão anímica. A Aids é o estágio terminal do amor que caiu na sombra.

A Aids abre as fronteiras do Eu no corpo e, neste sentido, a morte também é uma forma de expressão do amor, visto que concretiza a entrega total e a renúncia à existência isolada do Eu. A morte é sempre o começo de uma transformação, o início de uma metamorfose.


*Extrato do livro "A Doença como Caminho" de Thorwald Dethlefsen e Rüdiger Dahlke (Ed. Cultrix), resumido e adaptado por Otávio Azevedo.


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